A partir de 26 de maio de 2026, a fiscalização da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1) passou a ter caráter punitivo para as empresas que não comprovarem o gerenciamento de riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Isso significa que, hoje, empresas que ainda tratam essa exigência como uma formalidade burocrática já estão expostas a autuações, com multas que podem chegar a valores expressivos, conforme o porte da empresa.
Mas o que isso tem a ver com dinheiro?
O que mudou na NR-1
Desde a atualização trazida pela Portaria MTE nº 1.419/2024, o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) das empresas passou a exigir, de forma explícita, a identificação e o gerenciamento de riscos psicossociais — ou seja, fatores relacionados à organização do trabalho que podem gerar sofrimento psíquico, adoecimento e queda de desempenho. Estresse, sobrecarga, assédio, insegurança quanto ao futuro no emprego: tudo isso entrou no radar da norma.
O ponto central é que a NR-1 não trouxe uma lista fechada e definitiva desses fatores de risco. Ela estabelece a obrigação de identificá-los dentro da realidade de cada empresa. E é aqui que mora um problema que poucas organizações enxergam com clareza.
O risco que ninguém declara
Segundo pesquisa da Serasa Experian (Pesquisa de Saúde Financeira e Bem-estar do Trabalhador Brasileiro, 2025), 54% dos trabalhadores brasileiros não conseguem fazer o salário durar até o fim do mês. Esse dado, sozinho, já preocupa. Mas o que ele não mostra é o efeito colateral silencioso desse desequilíbrio dentro das empresas.
Quando um colaborador procura o RH, o médico do trabalho ou um psicólogo por conta de ansiedade, insônia, irritabilidade ou queda de produtividade, dificilmente ele vai apontar “dinheiro” como a causa. O motivo declarado costuma ser outro — sobrecarga, relacionamento com a liderança, cansaço. Mas, na prática, boa parte desse sofrimento tem raiz financeira. É um risco real, mensurável nos números de absenteísmo, rotatividade e queda de produtividade, mas que quase nunca aparece nomeado dessa forma.
Por isso, uma leitura estratégica — e defensável — da NR-1 é a de que o gerenciamento de riscos psicossociais não pode ignorar a saúde financeira do time. É importante ser honesta aqui: a norma não cita literalmente “educação financeira” como item obrigatório. O que ela exige é a identificação de fatores de risco à saúde mental dos trabalhadores dentro do contexto real de cada empresa — e a insegurança financeira é, comprovadamente, um dos fatores mais presentes e menos falados nesse contexto.
Por que isso importa para a sua empresa, além da conformidade
Ignorar essa conexão tem um custo duplo. De um lado, o risco regulatório: um PGR que não considera fatores de risco relevantes e comprováveis dentro da realidade da empresa pode ser questionado em fiscalização. De outro, o custo invisível do dia a dia: colaboradores endividados pedem mais adiantamento salarial, faltam mais, rendem menos e têm maior propensão a pedir demissão ou serem desligados — um ciclo caro para a empresa e devastador para quem vive nele.
E há ainda um agravante recente: o crescimento das apostas esportivas online, as chamadas “bets”, como fator de comprometimento financeiro de famílias inteiras. Não se trata de falta de força de vontade, mas de um vício reconhecido, que exige abordagem séria e encaminhamento adequado — outro motivo pelo qual tratar saúde financeira dentro da empresa deixou de ser luxo e passou a ser prevenção.
O que fazer com essa informação
Cumprir a NR-1 de forma genuína — não apenas documental — significa ir além do checklist. Significa dar ao colaborador ferramentas reais para organizar sua vida financeira, entender seus gastos, sair do ciclo de dívidas e recuperar controle. Não é sobre discurso motivacional: é sobre método, prática e acompanhamento.
É exatamente esse o compromisso que assumo com as empresas com quem trabalho: levar educação financeira aplicada — não teórica — para dentro do ambiente corporativo, conectando o que a norma pede com o que realmente muda a vida do colaborador e o resultado da empresa. Se você é gestor de RH, SESMT ou liderança e quer entender como estruturar essa frente dentro do seu PGR, será um prazer conversar.
Fontes: Portaria MTE nº 1.419/2024; Serasa Experian, Pesquisa de Saúde Financeira e Bem-estar do Trabalhador Brasileiro (2025).

Solange Honorato, CFP®
Planejadora financeira, educadora financeira e especialista em mercado financeiro, produtos de investimento e consórcios. Certificada ANBIMA CPA, C-PRO R e C-PRO I. Também é especialista em formação de equipes comerciais de alta performance. Fundadora da ACAMEF – Academia do Mercado Financeiro, já formou mais de 15 mil profissionais desde 2015.
