Imagine que a economia brasileira é uma festa. A política nacional é a playlist. A bolsa de valores é a pista de dança. O dólar é o preço da bebida na porta. E o apetite dos empreendedores? São os convidados decidindo se entram e dançam ou ficam olhando da calçada.
Parece exagero? Pois olha o que aconteceu nesta semana: no domingo (4/10), o Brasil votou no 1º turno das eleições. Na segunda-feira, o Ibovespa disparou 7,7% (a maior alta diária em seis anos), bateu recorde histórico e fechou acima dos 200 mil pontos pela primeira vez, a 206.912 pontos, depois de encostar nos 210 mil na máxima do dia. O dólar caiu mais de 4%, chegou a ser negociado abaixo de R$ 5 e fechou exatamente em R$ 5,00. Nenhuma empresa faturou mais um real nesse intervalo. Nenhuma fábrica produziu mais nada. Foi só a playlist mudando.
Política não é economia, mas mexe com ela
Aqui está o segredo que muita gente não percebe: o mercado financeiro não negocia o presente, ele negocia expectativas. Quando a política nacional sinaliza, na leitura do mercado, um cenário de maior previsibilidade (reformas em pauta, contas públicas sob controle, regras do jogo estáveis), o investidor antecipa decisões e compra. Quando o cenário embola, ele vende primeiro e pergunta depois.
Foi exatamente isso que os números mostraram: o resultado do 1º turno não estava precificado, e o mercado reagiu em bloco, passando a tratar uma virada no 2º turno, marcado para 25 de outubro, como pouco provável. Ou seja: a bolsa e o dólar já estão votando, todos os dias, a cada segundo de pregão.
A bolsa: o termômetro do otimismo sobre os lucros
Quando você compra uma ação, você compra um pedacinho do lucro futuro de uma empresa. Se a expectativa é de juros menores, economia aquecida e empresário confiante, esses lucros futuros valem mais hoje, e a bolsa sobe. O Ibovespa acumula cerca de 28% em 2026, somados aos 34% de 2025. Muito disso é a história da política sendo contada em pontos.
O dólar: o medo tem endereço
O dólar funciona como o termômetro do medo. Quando o investidor estrangeiro fica inseguro com o Brasil, ele tira o dinheiro daqui: vende real, compra dólar, e a cotação sobe. Quando o clima melhora, ele volta, e o dólar cai. Foi o que aconteceu nesta semana: na sexta-feira antes da eleição, a moeda estava em R$ 5,22; na segunda, foi a R$ 5,00, com a maior queda diária em oito anos. Fazia quase cinco meses que o dólar não era negociado abaixo de R$ 5. Bastou a incerteza diminuir para o tabuleiro virar.
O apetite dos empreendedores: a confiança que não sai do lugar
E aqui está a parte que mais me interessa, porque fala de gente, não de pregão. Enquanto a bolsa comemorava, o Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI), da CNI, estava em 44,9 pontos em setembro, abaixo da linha dos 50 pontos pelo 21º mês seguido, o período de pessimismo mais longo da série. O Índice de Confiança Empresarial da FGV também caiu em setembro, pela terceira vez consecutiva.
Traduzindo: o empreendedor não dança na primeira música. Ele espera ver se a festa continua. Empresário não investe no que a bolsa diz, ele investe no que acredita que vai acontecer daqui a dois, três, cinco anos: prazo de uma fábrica, de uma loja, de uma contratação. Por isso a recuperação do apetite empreendedor sempre chega depois da festa do mercado financeiro. A bolsa reage em minutos; a confiança, em meses.
E você, o que faz com tudo isso?
A lição não é adivinhar eleição nem apostar em candidato. A lição é esta: política move o mercado no curto prazo, mas é o seu planejamento que move o seu patrimônio no longo prazo. Quem tentou acertar o resultado das urnas com a carteira de investimentos vive refém de pesquisas. Quem tem reserva de emergência, diversificação e objetivos claros consegue dormir no dia 25 de outubro, e em qualquer outro dia.
O segundo turno ainda pode surpreender, para um lado ou para o outro. Bolsa e dólar vão continuar dançando conforme a playlist. O seu papel é garantir que a sua música não pare: planejamento não depende de candidato.
Dados de mercado de 5 de outubro de 2026 (B3/Ibovespa e dólar comercial) e índices de confiança de setembro de 2026 (CNI/ICEI e FGV/ICE). Este texto tem caráter educacional e não constitui recomendação de investimento.

Solange Honorato, CFP®
Planejadora financeira, educadora financeira e especialista em mercado financeiro, produtos de investimento e consórcios. Certificada ANBIMA CPA, C-PRO R e C-PRO I. Também é especialista em formação de equipes comerciais de alta performance. Fundadora da ACAMEF – Academia do Mercado Financeiro, já formou mais de 15 mil profissionais desde 2015.
